Publicado em 1881 por Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas rompe com a tradição do romance ao apresentar um narrador que escreve depois de morto. Essa escolha narrativa define a maneira em que a vida será apresentada e constitui um dos elementos do realismo machadiano.
Quando Brás Cubas nos conta a sua trajetória depois da morte, o narrador elimina qualquer expectativa de progresso. Não há futuro, não há possibilidade de mudança, tampouco de redenção.
O que resta ao personagem é o passado, visto com distância e sem ilusões. Neste contexto, a narrativa abandona a ideia de realização e se aproxima de outra ideia: a de que a vida pode ser, no fim, vazia e inútil.
Neste artigo vamos explorar como a inutilidade da vida em Memórias Póstumas de Brás Cubas organiza a estrutura do romance e redefine o sentido da experiência humana. Continue lendo!
Memórias Póstumas de Brás Cubas: Uma trajetória sem finalidade
Ao revisitar sua vida, Brás Cubas não encontra um sentido que organize sua existência. Em vida, sua trajetória não se orienta por objetivos claros nem por projetos duradouros. As escolhas que faz são vaidosas e, quase sempre, inconsequentes. Reforçando a vida vazia e fracassada de Brás Cubas.
O amor, por exemplo, não se realiza como construção. Sua relação com Virgília é marcada pela instabilidade e interesse, sem alcançar profundidade ou permanência. Da mesma forma, sua vida pública não é significativa, ela é baseada em vícios e frustrações, o que contribui para a percepção da inutilidade da vida em Brás Cubas.
Mesmo suas ambições mais evidentes revelam o caráter vazio do personagem. A grande invenção do personagem nos é apresentada por ele como sendo grandiosa, mas que no fim, se mostra um grande fracasso e o fim do personagem.
O que há é algo mais sutil: uma incapacidade constante de transformar desejo em realização.
A vida de Brás Cubas não desmorona. Ela simplesmente não se constrói.
O vazio como forma de consciência
O aspecto mais inquietante da narrativa não está apenas nos acontecimentos, mas no modo como o narrador nos apresenta e observa. Brás Cubas não demonstra desespero diante do próprio vazio. Tampouco tenta justificá-la, o que reforça o estranho narrador defunto em Brás Cubas.
Seu olhar é distante. Ele analisa sua vida com apatia, como se não estivesse implicado nela. Essa postura elimina o drama tradicional e, ao mesmo tempo, intensifica o vazio em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
A ausência de sentido não é vivida como tragédia, mas como constatação.
Ao escrever depois de morto, o narrador já não precisa manter ilusões ou aparências. A morte funciona como ruptura: ela quebra justificativas sociais e expectativas de futuro. O que permanece é apenas o que foi, e isso se mostra insuficiente.
Nesse sentido, o vazio não é apenas resultado da vida narrada. Ele é também produto do olhar que a interpreta, reforçando a dimensão filosófica da inutilidade da vida em Brás Cubas.
O fracasso como resultado lógico
O momento final do romance estabelece essa visão. Brás Cubas apresenta um balanço de sua vida, mas o faz de maneira invertida. Em vez de destacar conquistas, ele enfatiza ausências e fracassos.
A conclusão do narrador é conhecida: não teve filhos, não transmitiu herança, não perpetuou sua existência.
O que poderia ser visto como perda é apresentado como vantagem. Ao não deixar descendentes, ele afirma não ter contribuído para a continuidade da miséria humana, uma das passagens mais famosas para compreender a filosofia de Brás Cubas.
Essa inversão é importante para a obra. O fracasso deixa de ser um acidente ou um desvio. Ele se torna o resultado coerente de uma vida sem propósito e vaidosa.
Não há superação. Não há redenção. Há apenas a constatação de que nada foi construído.
Conclusão
Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis propõe uma ruptura com a narrativa tradicional. A vida não é apresentada como caminho de realização, mas como sequência de experiências sem finalidade, repleta de vaidade e vícios.
A inutilidade não aparece como exceção. Ela faz parte da trajetória de Brás Cubas e redefine o modo como a existência é compreendida, consolidando o tema da inutilidade da vida em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Ao final, o romance sugere uma ideia desconfortável: viver não garante sentido, nem resultado, nem permanência. Em certos casos, viver significa apenas atravessar o tempo sem deixar nenhuma marca.
É essa percepção que torna a obra não apenas inovadora, mas profundamente pessimista. Você conhecia esse aspecto de Memórias Póstumas de Brás Cubas? Comente abaixo e compartilhe esse artigo com outros leitores!
Referências Bibliográficas
MACHADO DE ASSIS. Memórias póstumas de Brás Cubas. In: Obra completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. Publicado originalmente em folhetins na Revista Brasileira, a partir de março de 1880.
PIRES, André Monteiro Guimarães Dias; OLIVEIRA, Raquel Peralva Martins de. Machado de Assis: a realidade e o realismo. CES Revista Juiz de Fora, v. 221–234, 2010.
BOSI, Alfredo. Machado de Assis: o enigma do olhar. São Paulo: Ática, 1999. Acesso em: 6 jun. 2025.
ESTÁCIO, Denise de Quintana. Mapeamento literário no romance machadiano: pressupostos para leitura de Quincas Borba. 2018. 131 f. Dissertação (Mestrado em Letras) — Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2018. Disponível em: http://hdl.handle.net/10183/19447 . Acesso em: 16 jun. 2025.
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