Publicado em 1876, Helena, de Machado de Assis, é um dos romances mais importantes da fase romântica do autor e uma obra que antecipa a sua transição para o Realismo.
A história se passa no Brasil do Segundo Reinado, e acompanhamos a chegada de uma jovem misteriosa à elite carioca após ser reconhecida como filha ilegítima de um aristocrata em testamento.
Entre segredos, amores proibidos e rígidas convenções sociais, Machado constrói uma trama envolvente que combina crítica, dilemas morais e sutilezas psicológicas.
Neste artigo vamos apresentar um resumo completo de Helena, destacar os seus principais momentos, personagens, temas e simbolismos, além de te posicionar no contexto histórico, estilo narrativo e adaptações.
Espero te oferecer um panorama aprofundado de uma das obras mais sensíveis e complexas do período romântico brasileiro. Continue lendo e compartilhe esse artigo!
Índice
Resumo de Helena, de Machado de Assis

Publicada em 1876, é um romance que faz parte da fase romântica de Machado de Assis. O livro foca na figura de uma jovem misteriosa que surge em meio a elite carioca e desequilibra as convenções sociais e familiares que a cercam.
A história começa com a morte do conselheiro Vale, um homem rico e influente, que em seu testemunho cita uma filha ilegítima: Helena.
A jovem é aceita com desconfiança por sua nova família. No entanto, a sua chegada de causa uma série de mudanças na em seu entorno, desafiando valores da aristocracia e as normas de conduta.
À medida que a convivência avança, Estácio fica dividido entre o afeto fraternal e uma paixão crescente pela protagonista. O conflito moral do personagem ganha mais intensidade quando ele pensa em abandonar a carreira política e romper com as convenções em nome desse amor.
Entretanto, ela guarda um grande segredo sobre à sua origem e a maneira como entrou na família. Essa revelação, que é feita no final da obra, é responsável por definir a trajetória de todos os personagens.
O romance se desenvolve com elegância, colocando em foco dilemas internos, os gestos contidos e os silêncios são carregados de significados.
A personagem, como figura feminina, personifica ao mesmo tempo o ideal da mulher virtuosa e a crítica das estruturas sociais do século XIX. A morte de Helena fecha a narrativa, conferindo um tom melancólico e redentor.
Principais Momentos de Helena
Morte do Conselheiro Vale
A morte do personagem é o evento que dá início a história. Após a sua morte, o seu testamento traz uma surpresa a todos: reconhece como filha Helena e lhe deixa parte da herança.
Essa revelação causa muita tensão entre a família, principalmente em Estácio, filho legítimo do conselheiro, e em D.Úrsula, a tia conservadora que teme por escândalos. Ao colocar Helena como herdeira, o conselheiro desestabiliza a ordem da casa e coloca Helena em um no centro desse conflito.
Chegada de Helena à chácara
Ao chegar à casa da nova família, é recebida com desconfiança e frieza. Todos duvidam de suas intenções e de sua origem. No entanto, com o passar do tempo, a personagem conquista todos em sua volta por sua beleza, educação, sensibilidade e postura.
Estácio começa a admirá-la cada vez mais, mas esse afeto começa a passar dos limites do amor entre irmãos. A presença de Helena provoca mudanças profundas na casa e em todos ao seu redor.
O Conflito interno de Estácio
Estácio vive um dilema moral: ele se apaixona por Helena, mas tem medo que esse sentimento seja impróprio, já que a vê como irmã.
Ele fica dividido entre o sentimento e o dever moral, além disso, o personagem enfrenta a vigilância constante de tia D. Úrsula, que tenta protegê-lo do escândalo.
Enquanto isso, todos observam a aproximação dos dois com suspeita, alimentando boatos e aumentando a pressão emocional sobre Estácio.
Investigação e descoberta do segredo
Estácio começa a duvidar de Helena e começa a investigá-la. Ele descobre que ela não é filha biológica do Conselheiro Vale, mas sim de um amigo próximo, que pediu que ele a acolhesse após a sua morte.
Ela sabia da verdade desde o início, mas guardou o segredo para honrar a memória do pai adotivo e proteger a nova família. Essa revelação muda tudo, já que a paixão de Estácio passa a ser socialmente aceitável, mas era tarde demais.
O final trágico de Helena
Depois de contar a sua verdadeira origem e se afastar de Estácio, Helena entra em processo de declínio físico e emocional. Consumida pela culpa, angústia e solidão, ela adoece.
Pouco tempo depois da sua confissão, Helena morre, terminando a história com um final trágico, melancólico e redentor. A morte da personagem apaga o escândalo, mas deixa marcas profundas naqueles que conviveram com ela.
Os Personagens de Helena

Helena, de Machado de Assis, nos apresenta um conjunto de personagens que não só representam arquétipos da elite carioca do século XIX, mas os personagens também têm dilemas morais e afetivos do período.
Cada personagem tem uma função muito específica na história e carrega valores simbólicos profundos, especialmente à ordem social, às expectativas sociais sobre casamento e à tensão entre desejo e dever.
Helena
Helena nos é apresentada como filha ilegítima do Conselheiro Vale, ela é acolhida pela família do pai depois de ser mencionada em seu testamento.
Helena é uma jovem educada e discreta, ela rapidamente conquista a simpatia de todos, mas guarda um segredo sobre a sua verdadeira origem, o que muda completamente o desfecho da história.
A trajetória da personagem é marcada por sacrifício, vigilância e desconfiança. No fim, a sua morte trágica representa a reconciliação da desordem familiar.
A personagem dá início aos conflitos éticos e emocionais da obra. Sua presença altera o equilíbrio da família Vale.
Além disso, ela encarna o ideal romântico da mulher virtuosa e abnegada, Helena também representa a figura feminina que desafia e, ao mesmo tempo, que tenta se integrar. Sua morte funciona como expiação e restauração da ordem.
Estácio
Estácio é o filho legítimo do Conselheiro Vale, é um descrito como jovem culto, reservado e criado para seguir a carreira política.
No princípio, ele resiste à presença de Helena, mas aos poucos começa a nutrir uma paixão por ela e com isso passa a enfrentar um dilema entre os seus sentimentos pela protagonista e a moralidade social.
Mesmo depois de descobrir que Helena não era sua irmã biológica, a culpa ainda pesa em sua consciência e a perda de Helena o marca profundamente.
Estácio é o personagem central do conflito amoroso e moral, o que nos leva a duvidar até onde a paixão pode ir e a se justificar.
Conselheiro Vale
O Conselheiro Vale é o pai de Estácio e o chefe da família Vale, a sua morte é o estopim da narrativa. O testamento do personagem revela a existência de Helena, filha ilegítima, o que provoca um abalo na estrutura da família. A revelação feita pelo Conselheiro Vale afeta profundamente os destinos dos que ficaram.
O personagem tem a função narrativa de catalisador, já que a sua escolha póstuma desencadeia o conflito central da obra.
D. Úrsula
D. Úrsula é a tia de Estácio e é retratada como a guardiã moral e do prestígio da família. A personagem é dita como conservadora e rígida.
No princípio, assim como o resto da família, ela resiste à chegada de Helena, mas aos poucos passa a aceitá-la, ao mesmo tempo que permanece atenta aos sentimentos do sobrinho pela pela jovem.
A função que a personagem desempenha na história é de ser o olhar moralizador e protetor das aparências.
Outros personagens:
- Camargo – É amigo da família Vale e político. A sua participação na história é pontual, mas carregada de peso. Ele representa o mundo superficial, vaidoso e oportunista dos personagens. Ele tem a função narrativa de elemento externo, pois comenta e observa os acontecimentos.
- Mendonça – É um pretendente educado e respeitável que demonstra interesse amoroso por Helena. A sua presença provoca ciúmes em Estácio e intensifica o dilema do protagonista. Mendonça representa uma alternativa romântica que é socialmente aceitável para Helena.
- Eugênia – Vizinha da família, Eugênia é rica, bela e prometida a casamento a Estácio. No entanto, é especial e desperta compaixão e preconceito. Ela é um possível par romântico para Estácio, seguindo os interesses da sociedade.
- Padre Melchior – Figura religiosa próxima à família, padre Melchior atua como conselheiro espiritual e mediador moral nas crises. Ele é a voz da moderação e do dever cristão, aparecendo nos momentos mais críticos para aconselhar os personagens.
Os Temas Explorados em Helena

Helena, de Machado de Assis, não nos apresenta apenas um drama familiar, mas tem como pano de fundo uma crítica sutil às convenções sociais e morais do século XIX.
Machado de Assis utiliza da trajetória da protagonista como metáfora das tensões entre legitimidade e aparência, desejo e repressão, moralidade e hipocrisia.
Por isso é importante conhecer os principais temas e simbolismos que fazem parte de uma das obras mais conhecidas de Machado de Assis.
Identidade falsa
O ponto de partida da história é a revelação de que Helena, filha não reconhecida do Conselheiro Vale, só é acolhida na família por causa do testamento. Quando inserida na alta sociedade, ela precisa conquistar um espaço que não lhe pertence por nascimento, mas por uma questão legal.
Essa identidade que é forjada mostra o contraste entre o que se é e o que parece ser. A personagem passa a conviver com a elite como uma “moeda falsa”: aceita, mas sempre vista com desconfiança.
A tentativa de fazer parte como membro desse novo ciclo social nos mostra o conflito entre a aparência da moralidade e a estrutura rígida dessa sociedade.
Amor proibido e ciúmes contidos
O relacionamento entre Helena e Estácio é a tensão romântica da obra, embora apresentados como irmãos, eles têm tensões emocionais que ultrapassam os limites aceitáveis em uma relação fraternal.
Estácio nutre um sentimento que oscila entre o amor entre irmãos e desejo amoroso, o que o atormenta com ciúmes e conflitos internos.
A sociedade e a família, representadas por personagens como D. Úrsula e o Padre Melchior, atuam como forças repressoras, impedindo que esse sentimento se desenvolva e se manifeste.
O resultado é um desejo reprimido, que só consegue se expressar por meio de gestos formais e olhares silenciosos, uma paixão impossível, condenada desde de o início.
A moral religiosa
A moral religiosa está presente na obra através do Padre Melchior. Esse personagem vai simbolizar a religião como força moral. O padre assume o papel de orientar os comportamentos dos personagens, principalmente no que diz respeito às mulheres, reforçando a ordem e o dever.
A protagonista da história, apesar de apresentar um modelo de virtude, carrega subjetividade e contradição. Ela reconhece e até mesmo aceita a moral religiosa, mas age de forma estratégica para proteger o seu segredo e a sua posição na família.
A religião, neste caso, não é libertadora, mas funciona como uma ferramenta para manter a conformidade.
Aparência de aceitação
Embora seja acolhida pela família Vale e pelo meio que a cerca, Helena nunca é sente completamente aceita. O seu status continua sendo frágil e condicional, sustentada por uma legalidade que foi dada a ela por um homem morto.
A elite que cerca a jovem constantemente tece elogios a ela, mas sempre a vê como alguém de fora e desconfiança.
Aqui, o escritor nos mostra como a cordialidade, por vezes, é usada como uma máscara para encobrir uma estrutura de exclusão e ressentimento. Helena é aceita e elogiada, mas é constantemente vigiada.
Helena e os dilemas sociais
Helena representa muitas coisas na obra e uma delas são os dilemas sociais, morais e até mesmo afetivos do Brasil do século XIX. A sua presença como filha ilegítima que foi acolhida por testamento explica os limites da mobilidade social naquele tempo. Afinal, ela entra no universo da elite, mas precisa sempre provar que é digna dele.
Além da estrutura social, o romance mostra o papel que a mulher possuía naquele tempo: o ideal de mulher virtuosa e recatada, mas que bastava uma origem duvidosa ou um comportamento estranho para que fosse marginalizada.
Helena é constantemente observada e cada olhar busca encontrar um simples vacilo da personagem.
A morte e a restauração da ordem
A história possui um desfecho trágico e a tragédia aqui não é por acaso, mas cumpre um papel simbólico e moral.
Ao confessar a sua verdadeira origem e se afastar de Estácio, Helena renuncia a sua posição e, ao morrer, restabelece o equilíbrio que foi perturbado desde a sua chegada à família Vale. É como se o sistema afirmasse que não há espaço para exceção, ainda que virtuosa.
Contexto Histórico e Literário de Helena, de Machado de Assis

Helena, publicado em 1876, foi escrito em um momento de transição da literatura brasileira, ainda carregando as marcas do Romantismo, mas com sinais claros de mudanças sociais e no estilo. Machado de Assis se posiciona nesse período e deixa traços dele em suas obras.
O Brasil do Segundo Reinado
O cenário do Brasil do Segundo Reinado, no fim do século XIX, era de uma aristocracia muito presente, com uma sociedade rígida e que tinha preocupação com ideias como honra, linguagem e aparência. É nesse cenário que Helena se destaca como uma das obras que expressa e explora esses valores.
A obra explora esses conceitos ao apresentar uma filha ilegítima de um aristocrata e a sua entrada na elite carioca, que só é aceita por conta de um testamento. Essa temática reflete como o sangue e o sobrenome eram mais valorizados do que as virtudes individuais.
Helena é aceita na sociedade, mas nunca totalmente. Sua presença mostra o quanto a elite do século XIX dependia de formas de distinção simbólicas e não necessariamente éticas ou morais.
A condição da mulher
A protagonista não deve apenas ser vista como uma intrusa no mundo dos nobres, a personagem carrega consigo a nova imagem da mulher burguesa: educada, sensível, inteligente e íntegra.
No entanto, mesmo Helena possuindo cada uma dessas características, a sua posição não é vista como legítima, e isso faz com que a personagem esteja constantemente sendo provada.
A mulher daquele período, por vezes, era vista como uma peça chave nas alianças sociais, o seu casamento deveria reforçar o prestígio familiar.
Helena, porém, não faz alianças, não recebe um amor ou uma aceitação da sua posição plenamente. A trajetória da personagem na obra é solitária, marcada pelo silêncio e o sacrifício.
Helena como Ponte para o Realismo
Mesmo que Helena ainda seja um típico romance, já é possível identificar alguns elementos que fazem parte do realismo machadiano, elementos estes, que só vão ser consolidados a partir de Memórias Póstumas de Brás Cubas.
Em Helena, Machado de Assis trata os personagens com uma certa dose de complexidade psicológica, abandona os finais felizes (típicos do romance tradicional) e coloca em pauta uma discussão sobre os valores sociais da época.
Em vez de optar por um romance sentimental, Helena se aproxima mais de uma história crítica, onde cada gesto e silêncio carrega tensões profundas entre o que se mostra e o que se esconde.
Além disso, a própria estrutura narrativa, mesmo ainda sendo linear, traz sutilezas simbólicas e irônicas.
Estilo Narrativo e Estrutura de Helena

Ainda que Machado de Assis seja mais reconhecido pela sua escrita no Realismo, em Helena o escritor utiliza uma estrutura mais tradicional e um estilo narrativo mais contido. O escritor constrói uma história coesa e com foco em aspectos emocionais.
Um narrador discreto e uma narrativa linear
Em Helena, o autor adota um narrador em terceira pessoa, objeto e não intrusivo.
O narrador apenas acompanha os personagens, sem fazer qualquer tipo de julgamento direto ou participar da história.
Esse estilo é bem diferente daquele encontrado em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
A história nos é contada de forma linear e cronológica, ou seja, os eventos seguem uma ordem clássica:
- Introdução: morte do Conselheiro Vale e chegada de Helena;
- Desenvolvimento: adaptação à nova família e surgimento do amor proibido;
- Desfecho: revelação do segredo e morte trágica da Helena.
Esse formato privilegia a clareza, a coesão da história e o envolvimento emocional do leitor, típico do Romantismo. O tom idealizado, o reforço de valores como honra, dever e sacrifício.
Contraste com o Realismo de Machado de Assis
Quando comparamos Helena com outras obras realistas do autor, como Dom Casmurro, é possível perceber uma grande mudança no estilo e na intenção. Em Helena, o narrador:
- Valida os valores morais da época, como o respeito à ordem social;
- Não questiona as ações dos personagens nem expõe suas contradições;
- Evita a ironia corrosiva, tão marcante nas obras que foram escritas depois;
Assim, vemos que a narrativa está de acordo com a tradição romântica, algo que só mudaria a partir de 1880.
O presença da ironia
Helena é um romance bem contido, mas mesmo assim é possível notar a ironia sutil de Machado na obra.
A postura que o narrador adota, ainda que neutra, mostra um pouco as contradições entre aparência e realidade. Camargo, por exemplo, finge moralidade enquanto persegue os seus interesses.
Em vez de escolher apontar essas hipocrisias com sarcasmo, o narrador deixa que nós percebamos os desvios éticos e sociais dos personagens. Esse distanciamento é ausência dos julgamentos diretos funcionam como uma forma de ironia, apontando a transição do autor do Romantismo para o Realismo, mesmo que ele ainda estivesse preso na fórmula romântica.
Helena em comparação com outras obras de Machado de Assis
Quando analisamos Helena podemos entender a evolução do autor de um estilo romântico e idealizado para uma abordagem mais crítica e psicológica.
A protagonista serve como um elo entre a fase inicial e a maturidade do autor, e isso reflete nas mudanças, ainda que sutis, na forma que ele percebe e transcreve o mundo para às páginas
Relações com A Mão e a Luva e Iaiá Garcia
Assim como em Helena, os romances A Mão e a Luva e Iaiá Garcia nos apresentam mulheres jovens, belas, inteligentes e virtuosas. Essas protagonistas vivem conflitos sentimentais e familiares em meio a uma sociedade que está baseada em convenções sobre o casamento e o comportamento feminino.
- Em A Mão e a Luva, a personagem Guiomar tem uma trajetória semelhante à de Helena: uma jovem astuta, sensível e emocionalmente controlada, que precisa encontrar uma forma de unir os seus desejos com as expectativas sociais.
- Em Iaiá Garcia, a protagonista também enfrenta dilemas entre amor e dever.
Essas personagens representam o ideal feminino da fase romântica de Machado de Assis, em que a mulher ideal deveria ser: disciplinada, sensata e disposta a se sacrificar.
No entanto, Helena se destaca porque apresenta pequenas contradições e tensões internas que já anunciam o Realismo.
Os Sinais do Realismo
Embora ainda preso à estrutura tradicional dos romances românticos, Helena antecipa alguns elementos que se tornaram marcas na fase realista de Machado, especialmente em Memórias Póstumas de Brás Cubas.
- A personagem Helena carrega contradições, ela é doce e virtuosa, mas esconde segredos e toma decisões duvidosas.
- Esse jogo entre aparência e essência, comum no Realismo machadiano, tem um papel de destaque em Helena.
- A narrativa não possui uma ironia ácida e nem cínica como em Memórias Póstumas, mas transmite um mal-estar silencioso enquanto acompanhamos Helena.
Enquanto Brás Cubas ridiculariza os valores da sociedade, Helena ainda os respeita. No entanto, a presença da dúvida e conflitos de identidade da protagonista apontam uma virada no estilo do autor.
Adaptações e Crítica de Helena, de Machado de Assis

Helena ultrapassou os limites das páginas e ganhou novas formas em diferentes mídias, como o mangá, o teatro e a televisão.
Essas adaptações contribuíram para manter a obra viva na cultura brasileira. Entretanto, a recepção da obra pelos críticos foi carregada pelo silêncio, preconceitos e revisões.
Conheça as principais adaptações de Helena e como os críticos avaliaram o romance ao longo do tempo.
Adaptação em mangá
Em 2014, Helena recebeu uma adaptação para o formato mangá, ilustrado pelo Studio Seasons e publicado pela NewPOP Editora.
O mangá conta 256 páginas, manteve os personagens principais e a ambientação no Brasil imperial da década de 1850, combinando o estilo de desenho japonês com a essência do romantismo machadiano.
Essa adaptação teve como objetivo levar os clássicos da literatura brasileira para o público jovem, usando uma estética mais moderna e popular.
Essa adaptação se destacou pela forma como traduziu o drama e todo o universo emocional e contido de Helena em imagens expressivas.
Em 2015, o mangá ganhou certa atenção quando imagens foram usadas sem autorização na abertura da novela Além do Tempo, da Rede Globo.
O episódio gerou um intenso debate sobre direitos autorais e reconhecimento de obras derivadas, trazendo mais uma vez, o interesse pelo mangá.
Adaptações para teatro, rádio e televisão
A obra também recebeu destaque em suas adaptações para a TV, e isso mostra a flexibilidade da história em ser adaptado em diferentes mídias.
A história recebeu foi transformada em novela em 3 momentos:
- TV Paulista: em 1952 foi adaptado com roteiro de Manoel Carlos, essa versão fez parte da fase inicial da televisão brasileira. A adaptação manteve um estilo mais tradicional simples, e focou mais no caráter romântico da trama.
- Rede Globo: em 1975 o famoso canal de TV adaptou a obra. A novela foi estrelada por Lúcia Alves (Helena) e Osmar Prado (Estácio), essa versão fez parte do projeto da emissora de adaptar clássicos literários para o grande público.
- Rede Manchete: em 1987 adaptou Helena. A adaptação foi dirigida por Denise Saraceni e Luiz Fernando Carvalho, com Luciana Braga no papel principal, essa versão apostou em uma estilo mais dramático, alinhada à proposta da emissora nos anos 80.
Essas adaptações nos mostram o quanto Helena continua relevante e recebendo interpretações em diferentes mídias e linguagens.
Recepção da crítica
Quando publicada, em 1876, Helena não recebeu grande atenção por parte da crítica da época. Isso se deu porque a crítica literária ainda estava em formação na época e só ganhou força em 1880, com nomes como Araripe Júnior, José Veríssimo e Sílvio Romero.
Esses críticos, influenciados por ideias positivistas e naturalistas, começaram a valorizar os livros de Machado de Assis com maior complexidade filosófica e narrativa, como Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881) e Quincas Borba (1891). Assim, Helena foi vista como uma obra de transição, menos importante e presa ao modelo romântico tradicional.
O impacto do tempo no julgamento da obra
A crítica literária adotou uma visão linear da carreira literária de Machado, interpretando as suas obras como parte de uma evolução contínua que levava o autor até o seu estágio mais maduro de escrita, o Realismo. Nesse modelo, Helena ficou conhecida como uma etapa inicial e imatura da trajetória do autor, o que contribuiu para sua crítica.
Essa leitura foi aceita até mesmo pelo próprio escritor, que entendia as suas obras românticas como parte de um momento inicial, anterior ao seu amadurecimento como escritor.
Por que a crítica ignorou Helena?
Alguns aspectos da obra fizeram com que a sua imagem ela fosse menos considera:
- A protagonista é uma heroína idealizada, que estava de acordo com o gosto do público da época, mas já parecia fora de sintonia com as mudanças literárias e sociais que estavam em curso em 1876.
- A estrutura narrativa que segue os padrões clássicos do romance: linearidade, sentimentalismo, moralismo e finais trágicos.
- Helena não apresenta grandes mudanças temáticas ou formais, como fariam as obras da fase realista de Machado, que foram marcadas pela ironia, pelo narrador ambíguo e por uma crítica mais refinada.
Conclusão

Vimos que Helena é mais do que um romance de amor e sacrifício, o livro é um retrato social do Brasil do século XIX, nos mostrando a distância entre aparência e realidade em uma sociedade movida por status e convenções.
A protagonista, Helena, ao mesmo tempo virtuosa e estrategista, personifica a tensão entre o desejo de pertencimento e as barreiras impostas pela origem.
Com sua narrativa linear, tom contido e ironia sutil, a obra é uma ponte entre o Romantismo e o Realismo, deixando transparecer a complexidade psicológica que marcaria sua fase madura do autor.
Apesar de não ter recebido o seu real valor pela crítica da época, a obra continua sendo atual e relevante, seja como obra literária, seja como espelho histórico das relações sociais, morais e afetivas de seu tempo.
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Referências Bibliográficas
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Perguntas Frequentes
O que fala o livro de Helena?
O livro trata de segredos familiares e conflitos morais no Brasil imperial, envolvendo amor proibido, honra e aparências sociais.
Por que Helena morre?
A protagonista morre por causa de uma doença grave, revelando antes de falecer o segredo de sua origem.
Como termina o livro Helena de Machado de Assis?
O livro termina com a morte de Helena e a revelação de que ela não era filha do conselheiro Vale.
Quais são os personagens principais de Helena?
Os principais personagens de Helena são: Helena, Estácio, Conselheiro Vale, Dona Úrsula e Padre Melchior.
Helena tem adaptações?
Sim. Helena teve diferentes adaptações ao longo dos anos. Em 1975, foi transformada em uma minissérie de televisão exibida pela Rede Globo, com direção de Herval Rossano. Em 2014, o Studio Seasons produziu uma adaptação em formato de mangá, publicada pela NewPOP Editora, que manteve os personagens centrais e o cenário do Brasil imperial. Essas versões ajudaram a popularizar a obra entre novos públicos, preservando sua essência dramática e o contexto histórico original.