Gonçalves Dias é um dos nomes mais importantes do Romantismo brasileiro, não apenas por sua poesia, mas pelo papel central que exerceu na tentativa de imaginar um Brasil literário.
A relação entre Gonçalves Dias e o Romantismo revela um projeto consciente de construção simbólica da identidade nacional.
Escrevendo em um país recém-independente, o autor viveu um momento em que o Brasil buscava referências capazes de dar forma à sua cultura. Nesse contexto, a literatura deixou de ser apenas expressão estética e passou a funcionar como um verdadeiro projeto de fundação.
A obra de Gonçalves Dias nasceu dessa necessidade histórica. Seu romantismo não se limita ao lirismo ou à exaltação dos sentimentos, mas expressa o esforço de criar símbolos duradouros para a nação, especialmente por meio da figura do indígena, eleito como emblema da origem nacional.
Neste artigo, analisamos como Gonçalves Dias utilizou o Romantismo como projeto de identidade nacional, transformando a poesia em instrumento de imaginação do país. Continue lendo.
Gonçalves Dias e o romantismo como ideia de nação
No Romantismo brasileiro, a literatura passa a responder a uma pergunta central: como representar o Brasil para os próprios brasileiros. Gonçalves Dias foi o poeta que levou essa questão ao seu ponto mais profundo.
O indianismo, em sua obra, não se apresenta como simples idealização exótica. Ele funciona como tentativa de criação de um mito de origem para a literatura nacional.
O indígena surge como símbolo de bravura, dignidade e ligação profunda com a terra, capaz de sustentar uma identidade simbólica para o país.
Essa figura indígena não é histórica, mas poética. Gonçalves Dias não busca reconstruir o passado tal como foi, mas inventar uma narrativa fundadora. A identidade nacional, nesse sentido, nasce mais da imaginação literária do que do registro factual.
Ao mesmo tempo, esse projeto carrega tensões evidentes. O poeta tem plena consciência de que escreve a partir de modelos europeus e de uma formação intelectual marcada pela tradição estrangeira. Seu desejo de criar algo autenticamente nacional convive com a percepção dos limites desse esforço.
Essa contradição atravessa sua poesia e lhe confere um tom melancólico. O entusiasmo romântico se mistura à consciência da perda, da ruína e da ausência. O indígena não aparece como vencedor da história, mas como figura trágica, marcada pela derrota e pelo desaparecimento.
Em vez do “bom selvagem” triunfante, Gonçalves Dias constrói um herói que carrega a dignidade de um povo extinto. A identidade nacional, portanto, não se afirma como celebração plena, mas como memória e ausência, marcada pela consciência do que foi perdido.
Conclusão
A relação de Gonçalves Dias com o Romantismo revela um projeto literário mais complexo do que a simples exaltação do Brasil. Sua poesia não apenas idealiza a nação, mas reflete sobre os limites dessa idealização.
Ao transformar o indígena em símbolo nacional, o autor funda uma identidade literária ao mesmo tempo em que expõe suas contradições internas.
Ler Gonçalves Dias é compreender como a literatura participou da construção do imaginário brasileiro, não apenas como celebração, mas também como reflexão crítica sobre a própria ideia de nação.Seu romantismo permanece relevante porque revela não só o Brasil que se desejava criar, mas também as fraturas desse desejo.
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Referência bibliográfica
GRIZOSTE, Weberson Fernandes. Gonçalves Dias e a procura da identidade nacional brasileira. Brasiliana – Journal for Brazilian Studies, v. 2, n. 2, nov. 2013. Disponível em: https://tidsskrift.dk/bras/article/download/7852/13320/34867 . Acesso em: jan.2026.
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Perguntas Frequentes
Qual a relação de Gonçalves Dias com o Romantismo brasileiro?
Gonçalves Dias utiliza o Romantismo como projeto de construção da identidade nacional, principalmente por meio do indianismo.
O indianismo de Gonçalves Dias é histórico?
Não. É uma construção simbólica e poética, voltada à criação de um mito de origem para o Brasil.
Por que o indígena aparece como figura trágica?
Porque o autor reconhece a derrota dos povos indígenas e transforma essa perda em elemento central.
